segunda-feira, outubro 07, 2019

Autenticidade dos evangelhos


Autenticidade dos Evangelhos (Pe. Oscar G. Quevedo, SJ)
 Pe. Oscar G. Quevedo S.J. (*15/12/1930 - +09/01/2019)


Afirmar que os Evangelhos em geral e os milagres em particular se devem a invenções ou mitos dos primeiros cristãos é pura ignorância.
É absolutamente certo que os Apóstolos e líderes cristãos nem inventaram, nem aumentaram, nem esqueceram nada fundamental da doutrina, vida e concretamente dos milagres de Jesus.

Um dos maiores ataques feitos contra os Evangelhos foi feito por David Friedrich Strauss (1808-1874), e após esforçar-se por arruinar todos os dogmas e todos os mistérios cristãos: a Trindade, a Criação, a Redenção, a historicidade e valor da Bíblia, a Igreja, a vida eterna, etc., ainda teve amplo fôlego e o mais grosseiro dos sarcasmos para pretender um mundo sem Deus e sem sentido, o ser humano sem alma e sem porvir... Strauss perpetrou o maior ataque ao Catolicismo "superando todos os que lhe haviam iniciado o caminho, obrigando todos os que lhe seguiram (nessa conduta) a reconhece-lo por seu chefe". Ao pretendido mito dos primeiros cristãos, nada de realmente novo acrescentaram o racionalismo, positivismo, agnosticismo, materialismo... de Comte e Littré, Stuart Mil e Spinosa, Haeckel e Schopenhauer, etc., ou por outro lado Bultmann e Dibelius etc., com a pretendida desmitologização.

- Os ataques feitos por Strauss já foram ampla e folgadamente refutadas muitas vezes pelos melhores especialistas: A obra de Strauss é filha de "preocupações metafísicas muito alheias à erudição (...). Sua conclusão era falsa" (Quinet). "Em verdade ficava todo fora da realidade histórica (...). Numa palavra, Strauss errou o alvo" (Guignebert). Essa era a mesma conclusão a que já chegava um dos seus primeiros biógrafos logo depois da morte de Strauss: "Os resultados da crítica de Strauss são insustentáveis em qualquer domínio, histórico, filosófico e religioso" (Hausrath). Já antes o próprio Strauss, nos últimos anos de sua vida, declarou-se completamente impotente para defender-se contra os argumentos da crítica científica e teve que reconhecer que de sua obra não restava mais que um amontoado de escombros e ruínas. 

MITO DOS PRIMEIROS CRISTÃOS?

O claro sabor semítico mostra que os Evangelhos foram transmitidos por testemunhas e contemporâneos de Jesus.

* O fato de Jesus escolher precisamente 12 apóstolos, em evidente memória das doze tribos de Israel, não encaixa em invenções em ambiente greco-romano.

* Analogamente: escolheu precisamente 72 discípulos. Claramente semítico: à semelhança do Sinédrio judaico, que se compunha precisamente de 72 membros. 

* Encontram-se nos Evangelhos mais de 100 construções antitéticas, contraposições. Não encaixa no modo de escrever dos gregos e latinos, mas é típico dos semitas.

* Nos discursos de Cristo percebe-se o ritmo típico do Antigo Testamento e, consequentemente, o modo dos rabinos pregarem, que Jesus às vezes certamente imitava.

* E aparece freqüentemente na pregação de Jesus o modo típico Dele, sem paralelo nos rabinos, nem nos essênios, nem em Paulo, nem em algum outro pregador cristão imediato.

* Há nos Evangelhos dizeres enigmáticos para os primeiros cristãos, mas muito significativos para os judeus.

* Mesmo o Evangelho de São Lucas que freqüentemente mostra um corretíssimo e até elegante grego, ao traduzir as palavras de Jesus ou outros textos judaicos, aparece o grego semitizante da Koiné (vulgar). Retraduzindo para o aramaico, fica perfeito.

* Igualmente, retraduzindo aparecem freqüentemente jogos de palavras em aramaico, que perdem todo seu sentido em grego.

* Inclusive na tradução percebe-se o dialeto galileu do aramaico, falado por Jesus e seus Apóstolos.

* Nos Evangelhos aparece Jesus como um mestre que instrui seus discípulos (Mt 13,11; Mc 9,30; Lc 11,1; etc.). Isto significa que lhes fazia aprender de memória Suas palavras, como faziam e era típico dos rabinos. E uma das principais obrigações dos Apóstolos era o serviço da palavra (At 6,2). Como diz no inicio do seu Evangelho, São Lucas recolheu a "transmissão daqueles que desde o inicio foram testemunhas oculares e convertidos em ministros da palavra" (Lc 1,2).

* Da mesma maneira que os judeus nas sinagogas com as palavras da Antiga Aliança, os primeiros cristãos nas suas assembléias liam, repetiam, decoravam o ensino e as palavras de Jesus. Essa é uma das diferenças com as cartas dos apóstolos missionários, onde não se encontram citadas, embora se pressuponham, as palavras do Divino Mestre.

* E logicamente, estendendo-se o cristianismo fora de Israel, o respeito à palavra e atos de Jesus fez sentir a necessidade de, com a mesma fidelidade, pô-los por escrito: os Evangelhos. E multiplicar as cópias sempre com toda fidelidade. Expressamente conserva essa afirmação Eusébio de Cesaréia (265-340), concretamente a respeito do primeiro Evangelho, o do apóstolo que fora cobrador de impostos: "Mateus, que primeiro havia pregado aos hebreus, quando estava a ponto de partir até outros, entregou por escrito seu Evangelho, em sua língua materna (aramaico), suprindo assim por meio da escritura o que faltava de sua presença entre aqueles de quem se afastava".

* Os Evangelistas sem gênero de dúvidas conhecem a situação de Palestina na época de Jesus, a geografia, os costumes, os modos de construir, de cultivar, etc. Igualmente, os Sumos Pontífices Anás e Caifás, Herodes o Grande, seu filho Herodes Antipas, Poncio Pilatos, Tiberio César etc. são personagens da história judaica.

* Perante este fato que acabamos de assinar, pouco importa, pouco acrescenta que também escritores pagãos, que não davam a mínima para Jesus de Nazaré, não obstante aludem a Ele e a seus discípulos colocando-os naquela época, a meados do século I, como Suetônio na Vida de Claudio e na Vida de Nero, Plinio o Jovem na carta a Trajano, e Tácito nos seus "Annales".

* Já antes de terminado o século I o Cristianismo cobria todo o Império Romano, e Domiciano, Imperador de 81 a 96, fazia a 1ª sangrenta perseguição (chegaram a 10 nos primeiros três séculos), confirmando com inumeráveis martírios (martir = testemunho) a historicidade daquela doutrina.

REALMENTE ESCRITO POR TESTEMUNHAS PARA CONTEMPORÂNEOS

É até ridículo que os ataques contra a historicidade de Jesus Cristo (e da sua pregação e contra os milagres), isto é, contra a historicidade dos Evangelhos, sejam precisamente contra o caso melhor testemunhado de toda a história da humanidade antiga.

O próprio Strauss reconhecia encomiasticamente que se os Evangelhos houvessem sido escritos antes do fim do século II, não teria havido tempo, com os meios daquela época, para que a imaginação criadora dos primeiros cristãos construisse o mito da vida e obras de Jesus Cristo.

- Na realidade, após tantos ataques e disquisições, numerosas descobertas modernas garantiram que houve algum "Evangelho Primitivo", "Coleção Complementar", "Proto-Evangelho", "Fontes" ou S ("source") ou Q ("quelle")... (foram dados diversos nomes)

 Outro exemplo, e bem mais importante. Pensava-se erradamente que só Mateus fora originariamente escrito em aramaico, a língua que Jesus e seus contemporâneos falavam, e depois traduzido para o grego.

- Mas o jesuíta espanhol Pe. José Miguel García demonstrou que os quatro Evangelhos tiveram seus "Proto-Evangelhos" em aramaico. Retraduziu ao aramaico os quatro Evangelhos e encontrou erros, embora mínimos e sem importância, no tradutor ao grego, mas que se resolviam ao retraduzir para o aramaico. Mesmo em Marcos, o mais breve dos Evangelhos, só 16 capítulos, encontrou mais de 20 dificuldades do grego que ficaram resolvidas ao contrapô-las com o aramaico.

* Assim, por exemplo, em tradução exata do grego para o português, Mc 11,1, descrevendo a ida a Jerusalém a partir de Jericó, diz: "E quando se aproximavam de Jerusalém, para Betfagé e Betânia, junto ao monte das oliveiras..." Na ordem lógica do caminho de Jericó a Jerusalém seria à inversa. É claro que não faltou quem objetasse contra os Evangelhos dizendo que o evangelista não conhecia Palestina...

- Ora, é sabido que o autor do segundo Evangelho foi Marcos, originário de Jerusalém, deveria estar familiarizado com a geografia de sua terra tantas vezes, sem dúvidas, percorrida... A dificuldade se resolve sozinha retraduzindo para o aramaico certamente subjacente. A preposição grega eis significa em direção a, para onde, e foi posta pelo tradutor em vez da partícula aramaica b, que pode significar para onde mas também por onde. Pronto, resolvido o problema. São Marcos em aramaico não disse que de Jericó Jesus "se aproximava de Jerusalém para Betfagé e Betânia, junto ao monte das oliveiras", senão que "se aproximava de Jerusalém por Betfagé e Betânia, junto ao monte das oliveiras". Exato. Em aramaico exatamente corresponde à realidade. Para ir de Jericó a Jerusalém primeiro se passa por Betfegé e Betânia, aldeias perto do caminho, e um pouquinho antes de entrar em Jerusalém se passa junto ao monte das oliveiras.

* E mais ainda, conserva-se na Biblioteca de John Ryland, em Manchester, um pequeno fragmento de um papiro... Parecia de pouca importância que em 1920 se comprasse em Egito, entre outros papiros, um pequenino fragmento de 8,9 cm por 2,8 cm.

- Acontece que 10 anos mais tarde o pesquisador inglês C. H. Roberts descobriu que aquele fragmento era do texto do Evangelho de São João, Jo 18,31-33 no anverso, e no reverso Jo 18,37s. O tipo de letra garante que não podia haver sido escrito, isto é, copiado, em data posterior ao ano 125. E fora encontrado nas areias do oásis de El Fayum, no Egito! Isto é importantíssimo: o Evangelho de São João! O último dos Evangelhos a ser escrito! O último Evangelho antes do ano 125 já havia chegado até o extremo do Império Romano!

* Outros três pequenos fragmentos, cada um não maior de um selo de correios,haviam sido descobertos em Luxor (Egito) em 1901 pelo capelão inglês Rdo. Charles Huleat, que os doou à Biblioteca do Magdalen College, em Oxford. Não se lhes deu maior importância, deu-se por suposto sem mais pesquisas que seriam, como outros 37 papiros do Evangelho já conhecidos, datados do século II e mesmo do III. A comunidade judaico-cristã era muito florescente em Alexandria.

- Mas bem recentemente, em 1994, o Prof. Carsten Peter Thiede, Diretor do Instituto de Pesquisas de Paderborn, Alemanha, foi a Oxford a examinar minuciosamente aqueles três fragmentos... E novamente outra revolução: pelo tipo de letra do grego em caracteres verticais, aqueles textos evangélicos tinham que ser anteriores ao ano 50...! Como máximo, esticando até quebrar, poderiam chegar até o ano 70.

* Mais ainda. Mateus, Marcos e Lucas, os três Evangelhos sinóticos, em grego, tal como hoje os temos, foram terminados de escrever entre os anos 40-50 d.C., isto é, na década depois da morte de Jesus!. Concretamente: em 1970 houve uma outra sacudidela na opinião reinante a respeito da data dos Evangelhos. Encontrou-se numa gruta de Qumrã, junto ao Mar Morto (na fronteira de Israel, onde moravam os essênios, eremitas fanáticos e "separatistas" judeus), um pequeno fragmento de um papiro, tamanho de uma unha, só oito letras inteiras e fragmentos ao tudo de 18 letras. Grego em escrita Zierstil, que só se utilizou pouco antes de Cristo e como máximo, forçando as possibilidades, até 50 anos depois de Cristo. Precipitadamente todos supunham, pelas duas letras "n" que claramente apareciam, que se trataria de uma de tantas "gennealogias" típicas do Antigo Testamento, e não deram maior importância a "esse fragmento de alguma copia". Após muito estudo, o jesuíta espanhol (apesar do sobrenome irlandês de família) Pe. José O´Calaghan genialmente se perguntou: "E se fosse Gennesareht?" E demonstrou inapelavelmente que se trata mesmo de Mc 6,52s. O Evangelho de São Marcos foi escrito quanto antes do ano 50 d.C.?

* Portanto, todos os Evangelhos foram escritos quando Jesus estava ainda bem recente, quando ainda estavam vivos as testemunhas!, e vivos os próprios inimigos, que teriam desmascarado qualquer invenção. É mesmo, como proclama São João, "o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam da Palavra da vida..., nós A vimos e Lhe damos testemunho... o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos" (1Jo 1,1.3).

* Em toda a historia antiga Jesus Cristo é o único personagem que consta de quatro vidas paralelas, além das referencias nos Cartas e nos Atos dos Apóstolos.

* E muito mais que referências. Todos os especialistas estão de acordo em que as cartas de São Paulo são ainda anteriores aos Evangelhos. Trata-se de documentos escritos poucos anos depois da morte de Jesus. As últimas cartas não ultrapassaram 25 anos depois. Mais contemporaneidade numa história, impossível. Sem paralelo em todos os personagens antigos. Pois bem, está desenhado nitidamente nas cartas de São Paulo um sumario de toda a vida de Jesus Cristo. Debrucemo-nos uns segundos sobre as cartas de São Paulo:

Jesus, antes de vir a este mundo, preexistia como Deus (Fl 2,6). Jesus nasce duma Mulher sob o regime da Lei (Gl 4,4). Vive no meio dos Judeus (Rm 15,8; 1Ts 2,15). É verdadeiramente homem semelhante a nós (Rm 5,15; 1Cor 15,21s), menos no pecado (2Cdor 5,21). Tem "irmãos" (no significado aramaico - vide artigo no link) (1Cor 9,5). Um dois quais, Tiago (o Menor), é expressamente nomeado (Gl 1,19). Para colaborarem na sua missão e continuarem-na rodeia-se de Apóstolos (1Cor 9,5-14;15,7-9) em número de 12 (2Cor 15,5). Três dos quais, Cefas-Pedro, Tiago (o Maior) e João são mencionados pelo nome (Gl 1,18s). Jesus mandou-os pregar o Evangelho (1Cor 9,15). E têm poder de operarem milagres como Ele (2Cor 12,19). Levou na Terra uma vida de pobreza (2Cor 8,9), de sujeição (Fl 2,8), de obediência (Rm 5,15-19). Entregou-se voluntariamente a seus inimigos (Gl 1,4;2,20), aos Judeus, que o entregam à morte de cruz (1Ts 2,19). A Paixão de Jesus aconteceu pela Páscoa, no tempo dos Ázimos (1Cor 5,6-8). Na noite em que haveria de ser entregue, instituiu a Sda. Eucaristia (1Cor 11,23-26). Depois de horríveis tormentos, morre na Cruz (Fl 2,8). É sepultado, mas ressuscita ao terceiro dia (1Cor 15,4). Apareceu-se a Cefas, Tiago e também aos outros Apóstolos (1Cor 15,5.7s). Ascende aos Céus diante de mais de 500 pessoas (1Cor 15,6-8).

- Tantos dados da vida de Jesus têm ainda mais valor histórico se levarmos em consideração que as cartas de São Paulo não eram destinadas a informar os primeiros cristãos, esse conhecimento é dado por suposto, são escritos de circunstâncias.

* Só temos, de todos os autores greco-romanos uns 40 "códices grandes", assim chamados, todos posteriores ao século IV. Ora, Homero é do século VIII antes de Cristo. De Virgílio só se conservam três códices. De Cícero, pouco anterior a Cristo, só temos um códice, do século VII. Dos outros clássicos gregos, nenhum códice grande anterior ao século IX. Alguém, não fanático até o extremo da doença, negará a historicidade de alguns dos autores greco-romanos? Ora, de Cristo, anteriores ao século IV, para só considerar os "códices grandes" e só em grego, temos mais de 2.610. Inclusive do século I e da primeira parte do século II. Absolutamente incontáveis as citações, idênticas substancialmente. Como atestou o historiador Sir Frederic Kenyon, da "New Criticism", que agrupa os professores do Kenyon College, em Bambler (Ohio), "o número de manuscritos do Novo Testamento, de primitivas traduções, e de citações nos escritores mais antigos é tão grande, que em uma ou outra dessas autoridades antigas temos certeza é preservada a verdadeira versão. Isto não se pode dizer de nenhum outro livro antigo em todo o mundo".

- Por tudo isso, pense o prezado leitor
o que devemos pensar de tantos racionalistas e líderes anti-católicos que propalam, repetem e até desafiam a que se apresente algum livro da época de Jesus que fale Dele...


GRANDE RESPEITO

São Paulo logo após a morte de Jesus percorreu o "mundo civilizado". Nas cartas e pregação há muitas frases lapidares daquele dinâmico pregador e que muito facilmente poderiam atribuir-se ao próprio Jesus...

- ... Nenhuma foi introduzida nos Evangelhos! O que prova inapelavelmente o respeito que os escritores dos Evangelhos tiveram em transmitir com toda exatidão os fatos, a doutrina, as próprias palavras de Jesus.

* Estava muito recente a figura de Jesus. Inclusive muitos dos primeiros cristãos esperavam que Jesus voltaria novamente à Terra, interpretando erradamente mas cheios de saudade, certas frases do próprio Cristo. Assim é absurdo, é preconceito doentio afirmar que os primeiros cristãos trocaram ou inventaram as palavras e os milagres de Jesus.

* Pelo contrario, consideravam qualquer invenção ou modificação como grande desrespeito e grande desonestidade. Plenamente incompatível com o prestigio dos Apóstolos, Evangelistas e líderes cristãos, que tantas provas deram de honestidade.

* Os Apóstolos eram testemunhas escolhidos e formados pelo próprio Jesus.

* Os Apóstolos demonstraram admirável constância no testemunho perante qualquer auditório e perante os mais cruéis tormentos, todos selando seu testemunho com o martírio. Como cunhou Blasio Pascal: "Acredito em testemunha que se deixa matar".

E GRANDE VIGILÂNCIA

Consta que os Apóstolos e líderes por eles escolhidos para os primeiros cristãos tinham o convencimento e ensinavam que na Igreja havia que ter uma grande vigilância para que ninguém introduzisse nenhuma inexatidão, fábula ou heresia.

* É dito nos escritos dos rabinos da época e no Talmud contra os Apóstolos e primeiros líderes cristãos.

* Incrimina-o Juliano, o Apóstata, contra São Paulo.

* Alertavam o povo contra as fábulas (1Tm 4,4-7; 1Pd 1,16).

* Para substituir Judas tinha que ser alguém testemunha desde o começo (At 1,21).

* Os Evangelistas foram e consultaram "as testemunhas desde o começo" (Lc 1,2; Jo 15, 3-8).

* Insiste-se no Novo Testamento mais de 150 vezes em "testemunho", "testemunhar"...

* Concretamente para provar a Ressurreição de Cristo, São Paulo acudiu a mais de 500 testemunhas conjuntamente, "a maioria dos quais ainda vive" (1Cor 15,3-8).

* O Sínodo dos Apóstolos enviou Pedro e João a Samaria a inspecionar se o que se transmitia era exatamente a realidade dos fatos (At 8,14).

* Igualmente, com a mesma finalidade, Pedro foi inspecionar as comunidades perto de Jerusalém (At 9,32-42).

* Para isso foi enviado Barnabé a Antioquia (At 11,12ss).

* Privadamente viajou Paulo para verificar se ele próprio estava em tudo de acordo com Pedro, João e Tiago, "colunas" da Igreja (Gl 2,2. 9).

* Para os especialistas, não se pode duvidar que sete oitavas partes dos Evangelhos conservam-se exatamente iguais a como foram escritas. E essa uma oitava parte talvez modificada, é só diferente em alguma ordem das palavras ou troca de palavras sem em nada modificar o sentido. Simplesmente um monumento à vigilância dos líderes dos primeiros cristãos!

* Como conclusão de autoridade citemos a Constituição "Dei Verbum" do Concilio Vaticano II, No. 19, onde se proclama (incluindo algumas palavras a respeito da divindade e redenção salvadora de Jesus, temas da 3ª parte deste diálogo): "A Santa Mãe Igreja com firmeza e máxima constância sustentou e sustenta que os quatro mencionados Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente aquilo que Jesus, Filho de Deus, ao viver entre os homens, realmente fez e ensinou para a eterna salvação deles até o dia em que foi elevado (At 1,1-2). Os Apóstolos, após a ascensão do Senhor, transmitiram aos ouvintes aquilo que Ele dissera e fizera, com aquela mais plena compreensão de que gozavam, instruídos que foram pelos gloriosos acontecimentos de Cristo e esclarecidos pela luz do Espírito da verdade".

INVENTAR MILAGRES?

Como acabamos de ver, nenhum personagem antigo tem tamanha publicidade, universalidade, constância, contemporaneidade, veracidade... na documentação histórica como Jesus-Cristo. Frisemos que dos Evangelhos e demais documentos, não se podem suprimir os milagres. É completamente absurdo, puro preconceito doentio, afirmar que os Evangelhos em geral e os milagres em particular se devem a elaborações ou mitos dos primeiros cristãos. Por tudo o dito é absolutamente certo que os Apóstolos e líderes cristãos nem inventaram, nem aumentaram nem esqueceram nada fundamental da doutrina, vida e concretamente dos milagres de Jesus.

 *
Além do mais, contra isso de "experiências visionárias", na realidade os Apóstolos não eram proclives a acreditar em milagres. É dito contra eles nos Evangelhos, sinceramente, por amor à verdade, e essa crítica não podia surgir dos primeiros cristãos, que tanto respeitavam aos Apóstolos.
* Muitos textos de Cristo, dos Apóstolos (e dos SS. Padres e Escritores Eclesiásticos), destacam a importância dos milagres como fundamento para aceitar a Revelação. Não podem ser inventados. Por exemplo alguns textos, entre outros, de São João: Caná, "acreditaram" (2,11). "Testemunho maior que João" (5.36). Que sinal "para que creiamos?" (6,30). O Cristo "fará mais?" (7,31). Pecador "tais sinais?" (9,16-36). "As obras que faço" (10,24s.37s). Lázaro: "creiam", "creram", "todos crerão" (11,15.42.45.47s.). "Para crerdes" (20,30s). Etc.

* Nem os Apóstolos nem os primeiros cristãos, testemunhas, teriam mantido a fé, precisamente perante o "fracasso" de Jesus, contra tantas dificuldades nas catacumbas, perseguições e martírios. Nas "Atas dos Mártires" ficou gravado em bronze o exemplo heróico de milhares e milhares de mártires nos três primeiros séculos.

* Os primeiros cristãos precisavam de base firme, os milagres de Cristo e dos Apóstolos, para insubordinar-se contra as exigências do Judaísmo. E os primeiros cristãos de outras terras, contra os mitos e milagrerias do paganismo.

* Se os milagres dos Apóstolos não tivessem confirmado os de Jesus não se teriam convertido em tão grande número naquelas dificuldades. Os magos pagãos não o teriam reconhecido.

* Quem tenha um mínimo de conhecimento de crítica histórica, ou mesmo um mínimo de bom senso, compreende que se os milagres de Jesus devessem um mínimo à invenção dos evangelistas ou dos primeiros cristãos, seriam "milagres" bem mais maravilhosos, até o ridículo como os atribuídos a Maomé, a Buda..., ou de alguns Evangelhos Apócrifos, dada a divindade para a que se apresentam como prova.

* Os discípulos, pelo poder Dele, superaram o Mestre confirmando ao longo dos séculos milagre por milagre, no chamado "efeito bumerangue". Absolutamente inegáveis historicamente como demonstram em três séculos de pesquisa os Bolandistas (57 grandes volumes de "Acta Sanctorum", além da revista "Analecta Bollandiana").

* E os milagres atuais.

* E os milagres permanentes.

Os milagres são um tema fundamental, por importantíssimo, e porque são o fundamento para a aceitação da Revelação Cristã, e porque somente com fundamento nos milagres podemos sem fanatismos escolher entre as 56.000 religiões hoje existentes e porque só com os milagres podemos dirimir as discussões na interpretação da própria Revelação em detalhes mais ou menos importantes: relíquias, imagens..., ou primado papal, sacramento da penitência, culto à Mãe de Jesus, etc. etc., sem cairmos em discussões meramente de soberba humana. É pela sua importância, que já no nosso site temos falado de milagres e muito ainda deveremos falar. Planejei seis livros amplos para expor os principais milagres..., só publiquei dois livros amplos e um folheto: Sinto-me obrigado a recomendar encomiasticamente os livros "Milagres. A Ciência Confirma a Fé" e "Os Milagres e a Ciência", assim como o folheto (ou melhor em vídeo) sobre Nossa Senhora de Guadalupe.


Post original:
https://martyriaeditora.blogspot.com/2019/01/autenticidade-dos-evangelhos-pe-oscar-g.html?m=0

quarta-feira, julho 24, 2019

Café, arte e encontro.

CAFÉ, ARTE E ENCONTRO - Com o barista Daniel Alvarez
Pequeno resumo da palestra.

História do café e demostração dos vários tipos de preparo do café.
Em, julho 13/2019 de 09h30 às 11h30
Local: Centro Loyola de Fé e Cultura - Estrada da Gávea, nº 1

  

terça-feira, junho 18, 2019

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II AOS ARTISTAS



CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS ARTISTAS


1999

A todos aqueles que apaixonadamente
procuram novas « epifanias » da beleza
para oferecê-las ao mundo
como criação artística.
« Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa » (Gn 1,31).

O artista, imagem de Deus Criador

1. Ninguém melhor do que vós, artistas, construtores geniais de beleza, pode intuir algo daquele pathos com que Deus, na aurora da criação, contemplou a obra das suas mãos. Infinitas vezes se espelhou um relance daquele sentimento no olhar com que vós — como, aliás, os artistas de todos os tempos —, maravilhados com o arcano poder dos sons e das palavras, das cores e das formas, vos pusestes a admirar a obra nascida do vosso gênio artístico, quase sentindo o eco daquele mistério da criação a que Deus, único criador de todas as coisas, de algum modo vos quis associar.
Pareceu-me, por isso, que não havia palavras mais apropriadas do que as do livro do Gênesis para começar esta minha Carta para vós, a quem me sinto ligado por experiências dos meus tempos passados e que marcaram indelevelmente a minha vida. Ao escrever-vos, desejo dar continuidade àquele fecundo diálogo da Igreja com os artistas que, em dois mil anos de história, nunca se interrompeu e se prevê ainda rico de futuro no limiar do terceiro milênio.
Na realidade, não se trata de um diálogo ditado apenas por circunstâncias históricas ou motivos utilitários, mas radicado na própria essência tanto da experiência religiosa como da criação artística. A página inicial da Bíblia apresenta-nos Deus quase como o modelo exemplar de toda a pessoa que produz uma obra: no artífice, reflecte-se a sua imagem de Criador. Esta relação é claramente evidenciada na língua polaca, com a semelhança lexical das palavras stwórca (criador) e twórca (artífice).
Qual é a diferença entre « criador » e « artífice »? Quem cria dá o próprio ser, tira algo do nada — ex nihilo sui et subiecti, como se costuma dizer em latim — e isto, em sentido estrito, é um modo de proceder exclusivo do Omnipotente. O artífice, ao contrário, utiliza algo já existente, a que dá forma e significado. Este modo de agir é peculiar do homem enquanto imagem de Deus. Com efeito, depois de ter afirmado que Deus criou o homem e a mulher « à sua imagem » (cf. Gn 1,27), a Bíblia acrescenta que Ele confiou-lhes a tarefa de dominarem a terra (cf. Gn 1,28). Foi no último dia da criação (cf. Gn 1,28-31). Nos dias anteriores, como que marcando o ritmo da evolução cósmica, Javé tinha criado o universo. No final, criou o homem, o fruto mais nobre do seu projeto, a quem submeteu o mundo visível como um campo imenso onde exprimir a sua capacidade inventiva.
Por conseguinte, Deus chamou o homem à existência, dando-lhe a tarefa de ser artífice. Na « criação artística », mais do que em qualquer outra atividade, o homem revela-se como « imagem de Deus », e realiza aquela tarefa, em primeiro lugar plasmando a « matéria » estupenda da sua humanidade e depois exercendo um domínio criativo sobre o universo que o circunda. Com amorosa condescendência, o Artista divino transmite uma centelha da sua sabedoria transcendente ao artista humano, chamando-o a partilhar do seu poder criador. Obviamente é uma participação, que deixa intacta a infinita distância entre o Criador e a criatura, como sublinhava o Cardeal Nicolau Cusano: « A arte criativa, que a alma tem a sorte de albergar, não se identifica com aquela arte por essência que é própria de Deus, mas constitui apenas comunicação e participação dela ».[1]
Por isso, quanto mais consciente está o artista do « dom » que possui, tanto mais se sente impelido a olhar para si mesmo e para a criação inteira com olhos capazes de contemplar e agradecer, elevando a Deus o seu hino de louvor. Só assim é que ele pode compreender-se profundamente a si mesmo e à sua vocação e missão.

A vocação especial do artista

2. Nem todos são chamados a ser artistas, no sentido específico do termo. Mas, segundo a expressão do Gênesis, todo o homem recebeu a tarefa de ser artífice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima.
É importante notar a distinção entre estas duas vertentes da atividade humana, mas também a sua conexão. A distinção é evidente. De facto, uma coisa é a predisposição pela qual o ser humano é autor dos próprios atos e responsável do seu valor moral, e outra a predisposição pela qual é artista, isto é, sabe agir segundo as exigências da arte, respeitando fielmente as suas regras específicas.[2] Assim, o artista é capaz de produzir objetos, mas isso de per si ainda não indica nada sobre as suas disposições morais. Neste caso, não se trata de plasmar-se a si mesmo, de formar a própria personalidade, mas apenas de fazer frutificar capacidades operativas, dando forma estética às ideias concebidas pela mente.
Mas, se a distinção é fundamental, importante é igualmente a conexão entre as duas predisposições: a moral e a artística. Ambas se condicionam de forma recíproca e profunda. De facto, o artista, quando modela uma obra, exprime-se de tal modo a si mesmo que o resultado constitui um reflexo singular do próprio ser, daquilo que ele é e de como o é. Isto aparece confirmado inúmeras vezes na história da humanidade. De facto, quando o artista plasma uma obra-prima, não dá vida apenas à sua obra, mas, por meio dela, de certo modo manifesta também a própria personalidade. Na arte, encontra uma dimensão nova e um canal estupendo de expressão para o seu crescimento espiritual. Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a História da Arte não é apenas uma história de obras, mas também de homens. As obras de arte falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e revelam o contributo original que eles oferecem à história da cultura.

A vocação artística ao serviço da beleza

3. Um conhecido poeta polaco, Cyprian Norwid, escreveu: « A beleza é para dar entusiasmo ao trabalho, o trabalho para ressurgir ».[3]
O tema da beleza é qualificante, ao falar de arte. Esse tema apareceu já, quando sublinhei o olhar de complacência que Deus lançou sobre a criação. Ao pôr em relevo que tudo o que tinha criado era bom, Deus viu também que era belo.[4] A confrontação entre o bom e o belo gera sugestivas reflexões. Em certo sentido, a beleza é a expressão visível do bem, do mesmo modo que o bem é a condição metafísica da beleza. Justamente o entenderam os Gregos, quando, fundindo os dois conceitos, cunharam uma palavra que abraça a ambos: « kalokagathía », ou seja, « beleza-bondade ». A este respeito, escreve Platão: « A força do Bem refugiou-se na natureza do Belo ».[5]
Vivendo e agindo é que o homem estabelece a sua relação com o ser, a verdade e o bem. O artista vive numa relação peculiar com a beleza. Pode-se dizer, com profunda verdade, que a beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do « talento artístico ». E também este é, certamente, um talento que, na linha da parábola evangélica dos talentos (cf. Mt 25,14-30), se deve pôr a render.
Tocamos aqui um ponto essencial. Quem tiver notado em si mesmo esta espécie de centelha divina que é a vocação artística — de poeta, escritor, pintor, escultor, arquitecto, músico, ator... —, adverte ao mesmo tempo a obrigação de não desperdiçar este talento, mas de o desenvolver para colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade.

O artista e o bem comum

4. De facto, a sociedade tem necessidade de artistas, da mesma forma que precisa de cientistas, técnicos, trabalhadores, especialistas, testemunhas da fé, professores, pais e mães, que garantam o crescimento da pessoa e o progresso da comunidade, através daquela forma sublime de arte que é a « arte de educar ». No vasto panorama cultural de cada nação, os artistas têm o seu lugar específico. Precisamente enquanto obedecem ao seu gênio artístico na realização de obras verdadeiramente válidas e belas, não só enriquecem o patrimônio cultural da nação e da humanidade inteira, mas prestam também um serviço social qualificado ao bem comum.
A vocação diferente de cada artista, ao mesmo tempo que determina o âmbito do seu serviço, indica também as tarefas que deve assumir, o trabalho duro a que tem de sujeitar-se, a responsabilidade que deve enfrentar. Um artista, consciente de tudo isto, sabe também que deve atuar sem deixar-se dominar pela busca duma glória efémera ou pela ânsia de uma popularidade fácil, e menos ainda pelo cálculo do possível ganho pessoal. Há, portanto, uma ética ou melhor uma « espiritualidade » do serviço artístico, que a seu modo contribui para a vida e o renascimento do povo. A isto mesmo parece querer aludir Cyprian Norwid, quando afirma: « A beleza é para dar entusiasmo ao trabalho, o trabalho para ressurgir ».

A arte face ao mistério do Verbo encarnado

5. A Lei do Antigo Testamento contém uma proibição explícita de representar Deus invisível e inexprimível através duma « estátua esculpida ou fundida » (Dt 27,15), porque Ele transcende qualquer representação material: « Eu sou Aquele que sou » (Ex 3,14). No mistério da Encarnação, porém, o Filho de Deus tornou-Se visível em carne e osso: « Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher » (Gl 4,4). Deus fez-Se homem em Jesus Cristo, que Se tornou assim « o centro de referência para se poder compreender o enigma da existência humana, do mundo criado, e mesmo de Deus ».[6]
Esta manifestação fundamental do « Deus-Mistério » apresenta-se como estímulo e desafio para os cristãos, inclusive no plano da criação artística. E gerou-se um florescimento de beleza, cuja linfa proveio precisamente daqui, do mistério da Encarnação. De facto, quando Se fez homem, o Filho de Deus introduziu na história da humanidade toda a riqueza evangélica da verdade e do bem e, através dela, pôs a descoberto também uma nova dimensão da beleza: a mensagem evangélica está completamente cheia dela.
A Sagrada Escritura tornou-se, assim, uma espécie de « dicionário imenso » (P. Claudel) e de « atlas iconográfico » (M. Chagall), onde foram beber a cultura e a arte cristã. O próprio Antigo Testamento, interpretado à luz do Novo, revelou mananciais inexauríveis de inspiração. Desde as narrações da criação, do pecado, do dilúvio, do ciclo dos Patriarcas, dos acontecimentos do êxodo, passando por tantos outros episódios e personagens da História da Salvação, o texto bíblico atiçou a imaginação de pintores, poetas, músicos, autores de teatro e de cinema. Uma figura como a de Job, só para dar um exemplo, com a problemática pungente e sempre atual da dor, continua a suscitar conjuntamente interesse filosófico, literário e artístico. E que dizer então do Novo Testamento? Desde o Nascimento ao Gólgota, da Transfiguração à Ressurreição, dos milagres aos ensinamentos de Cristo, até chegar aos acontecimentos narrados nos Atos dos Apóstolos ou previstos no Apocalipse em chave escatológica, inúmeras vezes a palavra bíblica se fez imagem, música, poesia, evocando com a linguagem da arte o mistério do « Verbo feito carne ».
Tudo isto constitui, na história da cultura, um amplo capítulo de fé e de beleza. Dele tiraram proveito sobretudo os crentes para a sua experiência de oração e de vida. Para muitos deles, em tempos de escassa alfabetização, as expressões figurativas da Bíblia constituíram mesmo um meio concreto de catequização.[7] Mas para todos, crentes ou não, as realizações artísticas inspiradas na Sagrada Escritura permanecem um reflexo do mistério insondável que abraça e habita o mundo.

Entre Evangelho e arte, uma aliança profunda

6. Com efeito, toda a intuição artística autêntica ultrapassa o que os sentidos captam e, penetrando na realidade, esforça-se por interpretar o seu mistério escondido. Ela brota das profundidades da alma humana, lá onde a aspiração de dar um sentido à própria vida se une com a percepção fugaz da beleza e da unidade misteriosa das coisas. Uma experiência partilhada por todos os artistas é a da distância "incolmavel" que existe entre a obra das suas mãos, mesmo quando bem sucedida, e a perfeição fulgurante da beleza vislumbrada no ardor do momento criativo: tudo o que conseguem exprimir naquilo que pintam, modelam, criam, não passa de um pálido reflexo daquele esplendor que brilhou por instantes diante dos olhos do seu espírito.
O crente não se maravilha disto: sabe que se debruçou por um instante sobre aquele abismo de luz que tem a sua fonte originária em Deus. Há porventura motivo para admiração, se o espírito fica de tal modo inebriado que não sabe exprimir-se senão por balbuciações? Ninguém mais do que o verdadeiro artista está pronto a reconhecer a sua limitação e fazer suas as palavras do apóstolo Paulo, segundo o qual Deus « não habita em santuários construídos pela mão do homem », pelo que « não devemos pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e engenho do homem » (Act 17,24.29). Se já a realidade íntima das coisas se situa « para além » das capacidades de compreensão humana, quanto mais Deus nas profundezas do seu mistério insondável!
Já de natureza diversa é o conhecimento de fé: este supõe um encontro pessoal com Deus em Jesus Cristo. Mas também este conhecimento pode tirar proveito da intuição artística. Modelo eloquente duma contemplação estética que se sublima na fé são, por exemplo, as obras do Beato Fra Angélico. A este respeito, é igualmente significativa a lauda extasiada, que S. Francisco de Assis repete duas vezes na chartula, redigida depois de ter recebido os estigmas de Cristo no monte Alverne: « Vós sois beleza... Vós sois beleza! ».[8] S. Boaventura comenta: « Contemplava nas coisas belas o Belíssimo e, seguindo o rasto impresso nas criaturas, buscava por todo o lado o Dilecto ».[9]
Uma perspectiva semelhante aparece na espiritualidade oriental, quando Cristo é designado como « o Belíssimo de maior beleza que todos os mortais ».[10] Assim comenta Macário, o Grande, a beleza transfigurante e libertadora que irradia do Ressuscitado: « A alma que foi plenamente iluminada pela beleza inexprimível da glória luminosa do rosto de Cristo, fica cheia do Espírito Santo (...) é toda olhos, toda luz, toda rosto ».[11]
Toda a forma autêntica de arte é, a seu modo, um caminho de acesso à realidade mais profunda do homem e do mundo. E, como tal, constitui um meio muito válido de aproximação ao horizonte da fé, onde a existência humana encontra a sua plena interpretação. Por isso é que a plenitude evangélica da verdade não podia deixar de suscitar, logo desde os primórdios, o interesse dos artistas, sensíveis por natureza a todas as manifestações da beleza íntima da realidade.

Os primórdios

7. A arte, que o cristianismo encontrou nos seus inícios, era o fruto maduro do mundo clássico, exprimia os seus cânones estéticos e, ao mesmo tempo, veiculava os seus valores. A fé impunha aos cristãos, tanto no campo da vida e do pensamento como no da arte, um discernimento que não permitia a aceitação automática deste patrimônio. Assim, a arte de inspiração cristã começou em surdina, ditada pela necessidade que os crentes tinham de elaborar sinais para exprimirem, com base na Escritura, os mistérios da fé e simultaneamente de arranjar um « código simbólico » para se reconhecerem e identificarem especialmente nos tempos difíceis das perseguições. Quem não recorda certos símbolos que foram os primeiros vestígios duma arte pictórica e plástica? O peixe, os pães, o pastor... Evocavam o mistério, tornando-se quase insensivelmente esboços de uma arte nova.
Quando, pelo édito de Constantino, foi concedido aos cristãos exprimirem-se com plena liberdade, a arte tornou-se um canal privilegiado de manifestação da fé. Por todo o lado, começaram a despontar majestosas basílicas, nas quais os cânones arquitetônicos do antigo paganismo eram assumidos sim, mas reajustados às exigências do novo culto. Como não recordar pelo menos a antiga Basílica de S. Pedro e a de S. João de Latrão, construídas pelo imperador Constantino? Ou, no âmbito dos esplendores da arte bizantina, a Haghia Sophía de Constantinopla querida por Justiniano?
Enquanto a arquitetura desenhava o espaço sagrado, a necessidade de contemplar o mistério e de o propor de modo imediato aos simples levou progressivamente às primeiras expressões da arte pictórica e escultural. Ao mesmo tempo surgiam os primeiros esboços de uma arte da palavra e do som; e se Agostinho incluía também, entre as temáticas da sua produção, um De musica, Hilário, Ambrósio, Prudêncio, Efrém da Síria, Gregório de Nazianzo, Paulino de Nola, para citar apenas alguns nomes, faziam-se promotores de poesia cristã, que atinge frequentemente um alto valor não só teológico mas também literário. A sua produção poética valorizava formas herdadas dos clássicos, mas bebia na linfa pura do Evangelho, como justamente sentenciava o Santo poeta de Nola: « A nossa única arte é a fé, e Cristo é o nosso canto ».[12] Algum tempo mais tarde, Gregório Magno, com a compilação do Antiphonarium, punha as premissas para o desenvolvimento orgânico daquela música sacra tão original, que ficou conhecida pelo nome dele. Com as suas inspiradas modulações, o Canto Gregoriano tornar-se-á, com o passar dos séculos, a expressão melódica típica da fé da Igreja durante a celebração litúrgica dos Mistérios Sagrados. Assim, o « belo » conjugava-se com o « verdadeiro », para que, também através dos caminhos da arte, os ânimos fossem arrebatados do sensível ao eterno.
Não faltaram momentos difíceis neste caminho. A propósito precisamente do tema da representação do mistério cristão, a antiguidade conheceu uma áspera controvérsia, que passou à história com o nome de « luta iconoclasta ». As imagens sagradas, já então difusas na devoção do povo de Deus, foram objecto de violenta contestação. O Concílio celebrado em Niceia no ano 787, que estabeleceu a legitimidade das imagens e do seu culto, foi um acontecimento histórico não só para a fé mas também para a própria cultura. O argumento decisivo a que recorreram os Bispos para debelar a controvérsia, foi o mistério da Encarnação: se o Filho de Deus entrou no mundo das realidades visíveis, lançando, pela sua humanidade, uma ponte entre o visível e o invisível, é possível pensar que analogamente uma representação do mistério pode ser usada, pela dinâmica própria do sinal, como evocação sensível do mistério. O ícone não é venerado por si mesmo, mas reenvia ao sujeito que representa.[13]

A Idade Média

8. Os séculos seguintes foram testemunhas dum grande desenvolvimento da arte cristã. No Oriente, continuou a florescer a arte dos ícones, vinculada a significativos cânones teológicos e estéticos e apoiada na convicção de que, em determinado sentido, o ícone é um sacramento: com efeito, de modo análogo ao que sucede nos sacramentos, ele torna presente o mistério da Encarnação nalgum dos seus aspectos. Por isso mesmo, a beleza dum ícone pode ser apreciada sobretudo no interior de um templo, com os candelabros que ardem e suscitam na penumbra infinitos reflexos de luz. A este respeito, escreve Pavel Florenskij: « Bárbaro, pesado, fútil à luz clara do dia, o ouro reanima-se com a luz trémula dum candelabro ou duma vela, que o faz cintilar aqui e ali com miríades de fulgores, fazendo pressentir outras luzes não terrestres que enchem o espaço celeste ».[14]
No Ocidente, são muito variadas as perspectivas e os pontos donde partem os artistas, dependendo também das convicções fundamentais presentes no ambiente cultural do respectivo tempo. O patrimônio artístico, que se foi acumulando ao longo dos séculos, conta um florescimento vastíssimo de obras sacras de alta inspiração, que deixam cheio de admiração mesmo o observador do nosso tempo. Em primeiro plano, situam-se as grandes construções do culto, onde a funcionalidade sempre se une ao gênio artístico, e este último se deixa inspirar pelo sentido do belo e pela intuição do mistério. Nascem daí estilos bem conhecidos na História da Arte. A força e a simplicidade do românico, expressa nas catedrais ou nas abadias, vai-se desenvolvendo gradualmente nas ogivas e esplendores do gótico. Dentro destas formas, não existe só o gênio dum artista, mas a alma dum povo. Nos jogos de luzes e sombras, nas formas ora maciças ora ogivadas, intervêm certamente considerações de técnica estrutural, mas também tensões próprias da experiência de Deus, mistério « tremendo » e « fascinante ». Como sintetizar em poucos traços, nas diversas expressões da arte, a força criativa dos longos séculos da Idade Média cristã? Uma cultura inteira, embora com as limitações humanas sempre presentes, impregnara-se de Evangelho, e onde o pensamento teológico realizava a Summa de S. Tomás, a arte das igrejas submetia a matéria à adoração do mistério, ao mesmo tempo que um poeta admirável como Dante Alighieri podia compor « o poema sagrado, para o qual concorreram céu e terra »,[15] como ele próprio classifica a Divina Comédia.

Humanismo e Renascimento

9. A feliz estação cultural, em que tem origem o florescimento artístico extraordinário do Humanismo e do Renascimento, apresenta também reflexos significativos do modo como os artistas desse período concebiam o tema religioso. Naturalmente as inspirações são tão variadas como os seus estilos, ou pelo menos como os mais importantes deles. Mas, não é minha intenção lembrar coisas que vós, artistas, bem conheceis. Dado que vos escrevo deste Palácio Apostólico, escrínio de obras-primas talvez único no mundo, quero antes fazer-me voz dos maiores artistas que por aqui disseminaram as riquezas do seu gênio, permeado frequentemente de grande profundidade espiritual. Daqui fala Miguel Ângelo, que na Capela Sistina de algum modo compendiou, desde a Criação ao Juízo Universal, o drama e o mistério do mundo, retratando Deus Pai, Cristo Juiz, o homem no seu fatigante caminho desde as origens até ao fim da História. Daqui fala o gênio delicado e profundo de Rafael, apontando, na variedade das suas pinturas e de modo especial na « Disputa » da Sala da Assinatura, o mistério da revelação de Deus Trinitário, que na Eucaristia Se faz companheiro do homem, e projeta luz sobre as questões e os anelos da inteligência humana. Daqui, da majestosa Basílica dedicada ao Príncipe dos Apóstolos, da colunata que sai dela como dois braços abertos para acolher a humanidade, falam ainda Bramante, Bernini, Borromini, Maderno, para citar apenas os maiores, oferecendo plasticamente o sentido do mistério que faz da Igreja uma comunidade universal, hospitaleira, mãe e companheira de viagem para todo o homem à procura de Deus.
A arte sacra encontrou, neste conjunto extraordinário, uma força expressiva excepcional, atingindo níveis de imorredoiro valor quer estético quer religioso. O que vai caracterizando cada vez mais tal arte, sob o impulso do Humanismo e do Renascimento e das sucessivas tendências da cultura e da ciência, é um crescente interesse pelo homem, pelo mundo, pela realidade histórica. Esta atenção, por si mesma, não é de modo algum um perigo para a fé cristã, centrada sobre o mistério da Encarnação e, portanto, sobre a valorização do homem por parte de Deus. Precisamente os maiores artistas acima mencionados no-lo demonstram. Bastaria pensar no modo como Miguel Ângelo exprime nas suas pinturas e esculturas, a beleza do corpo humano.[16]
Aliás, mesmo no novo clima dos últimos séculos quando parte da sociedade parece indiferente à fé, a arte religiosa não cessou de avançar. A constatação torna-se ainda mais palpável, se da vertente das artes figurativas se passa a considerar o grande desenvolvimento que, neste mesmo período de tempo, teve a música sacra, composta para as necessidades litúrgicas, ou apenas relacionada com temas religiosos. Sem contar tantos artistas que a ela se dedicaram amplamente (como não lembrar Pero Luís de Palestrina, Orlando de Lasso, Tomás Luís de Victoria?), é sabido que muitos dos grandes compositores — de Händel a Bach, de Mozart a Schubert, de Beethoven a Berlioz, de Listz a Verdi — nos ofereceram obras de altíssima inspiração também neste campo.

A caminho dum renovado diálogo

10. Verdade é que, na Idade Moderna, ao lado deste humanismo cristão que continuou a produzir significativas expressões de cultura e de arte, foi-se progressivamente afirmando também uma forma de humanismo caracterizada pela ausência de Deus senão mesmo pela oposição a Ele. Este clima levou por vezes a uma certa separação entre o mundo da arte e o da fé, pelo menos no sentido de menor interesse de muitos artistas pelos temas religiosos.
Mas, vós sabeis que a Igreja continuou a nutrir grande apreço pelo valor da arte enquanto tal. De facto esta, mesmo fora das suas expressões mais tipicamente religiosas, mantém uma afinidade íntima com o mundo da fé, de modo que, até mesmo nas condições de maior separação entre a cultura e a Igreja, é precisamente a arte que continua a constituir uma espécie de ponte que leva à experiência religiosa. Enquanto busca do belo, fruto duma imaginação que voa mais acima do dia-a-dia, a arte é, por sua natureza, uma espécie de apelo ao Mistério. Mesmo quando perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista torna-se de qualquer modo voz da esperança universal de redenção.
Compreende-se, assim, porque a Igreja está especialmente interessada no diálogo com a arte e quer que se realize na nossa época uma nova aliança com os artistas, como o dizia o meu venerando predecessor Paulo VI no seu discurso veemente aos artistas, durante um encontro especial na Capela Sistina a 7 de Maio de 1964.[17] A Igreja espera dessa colaboração uma renovada « epifania » de beleza para o nosso tempo e respostas adequadas às exigências próprias da comunidade cristã.

No espírito do Concílio Vaticano II

11. O Concílio Vaticano II lançou as bases para uma renovada relação entre a Igreja e a cultura, com reflexos imediatos no mundo da arte. Tal relação é proposta na base da amizade, da abertura e do diálogo. Na Constituição pastoral Gaudium et spes, os Padres Conciliares sublinharam a « grande importância » da literatura e das artes na vida do homem: « Elas procuram dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e à experiência das suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situação na história e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor ».[18]
Baseados nisto, os Padres, no final do Concílio, dirigiram aos artistas uma saudação e um apelo, nestes termos: « O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração ».[19] Neste mesmo espírito de profunda estima pela beleza, a Constituição sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium lembrou a histórica amizade da Igreja pela arte e, falando mais especificamente da arte sacra, « vértice » da arte religiosa, não hesitou em considerar como « nobre ministério » a atividade dos artistas, quando as suas obras são capazes de refletir de algum modo a beleza infinita de Deus e orientar para Ele a mente dos homens.[20] Também através do seu contributo, « o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado e a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens ».[21] À luz disto, não surpreende a afirmação do Padre Marie-Dominique Chenu, segundo o qual o historiador da Teologia deixaria a sua obra incompleta, se não dedicasse a devida atenção às realizações artísticas, quer literárias quer plásticas, que a seu modo constituem « não só ilustrações estéticas, mas verdadeiros “lugares” teológicos ».[22]

A Igreja precisa da arte

12. Para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte. De facto, deve tornar perceptível e até o mais fascinante possível o mundo do espírito, do invisível, de Deus. Por isso, tem de transpor para fórmulas significativas aquilo que, em si mesmo, é inefável. Ora, a arte possui uma capacidade muito própria de captar os diversos aspectos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intuição de quem os vê e ouve. E isto, sem privar a própria mensagem do seu valor transcendente e do seu halo de mistério.
A Igreja precisa particularmente de quem saiba realizar tudo isto no plano literário e figurativo, trabalhando com as infinitas possibilidades das imagens e suas valências simbólicas. O próprio Cristo utilizou amplamente as imagens na sua pregação, em plena coerência, aliás, com a opção que, pela Encarnação, fizera d'Ele mesmo o ícone do Deus invisível.
A Igreja tem igualmente necessidade dos músicos. Quantas composições sacras foram elaboradas, ao longo dos séculos, por pessoas profundamente imbuídas pelo sentido do mistério! Crentes sem número alimentaram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outros crentes, que se tornaram parte da Liturgia ou pelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus.
A Igreja precisa de arquitetos, porque tem necessidade de espaços onde congregar o povo cristão e celebrar os mistérios da salvação. Depois das terríveis destruições da última guerra mundial e com o crescimento das cidades, uma nova geração de arquitetos se amalgamou com as exigências do culto cristão, confirmando a capacidade de inspiração que possui o tema religioso relativamente também aos critérios arquitetônicos do nosso tempo. De facto, não raro se construíram templos, que são simultaneamente lugares de oração e autênticas obras de arte.


A arte precisa da Igreja?

13. Portanto, a Igreja tem necessidade da arte. Pode-se dizer também que a arte precisa da Igreja? A pergunta pode parecer provocatória. Mas, se for compreendida no seu recto sentido, obedece a uma motivação legítima e profunda. Na realidade, o artista vive sempre à procura do sentido mais íntimo das coisas; toda a sua preocupação é conseguir exprimir o mundo do inefável. Como não ver então a grande fonte de inspiração que pode ser, para ele, esta espécie de pátria da alma que é a religião? Não é porventura no âmbito religioso que se colocam as questões pessoais mais importantes e se procuram as respostas existenciais definitivas?
De facto, o tema religioso é dos mais tratados pelos artistas de cada época. A Igreja tem feito sempre apelo às suas capacidades criativas, para interpretar a mensagem evangélica e a sua aplicação à vida concreta da comunidade cristã. Esta colaboração tem sido fonte de mútuo enriquecimento espiritual. Em última instância, dela tirou vantagem a compreensão do homem, da sua imagem autêntica, da sua verdade. Sobressaiu também o laço peculiar que existe entre a arte e a revelação cristã. Isto não quer dizer que o génio humano não tenha encontrado estímulos também noutros contextos religiosos; basta recordar a arte antiga, sobretudo grega e romana, e a arte ainda florescente das vetustas civilizações do Oriente. A verdade é que o cristianismo, em virtude do dogma central da encarnação do Verbo de Deus, oferece ao artista um horizonte particularmente rico de motivos de inspiração. Que grande empobrecimento seria para a arte o abandono desse manancial inexaurível que é o Evangelho!

Apelo aos artistas

14. Com esta Carta dirijo-me a vós, artistas do mundo inteiro, para vos confirmar a minha estima e contribuir para o restabelecimento duma cooperação mais profícua entre a arte e a Igreja. Convido-vos a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres. Nesta perspectiva, faço-vos um apelo a vós, artistas da palavra escrita e oral, do teatro e da música, das artes plásticas e das mais modernas tecnologias de comunicação. Este apelo dirijo-o de modo especial a vós, artistas cristãos: a cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem.
Cada ser humano é, de certo modo, um desconhecido para si mesmo. Jesus Cristo não Se limita a manifestar Deus, mas « revela o homem a si mesmo ».[23] Em Cristo, Deus reconciliou consigo o mundo. Todos os crentes são chamados a dar testemunho disto; mas compete a vós, homens e mulheres que dedicastes a vossa vida à arte, afirmar com a riqueza da vossa genialidade que, em Cristo, o mundo está redimido: está redimido o homem, está redimido o corpo humano, está redimida a criação inteira, da qual S. Paulo escreveu que « aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus » (Rm 8,19). Aguarda a revelação dos filhos de Deus, também através da arte e na arte. Esta é a vossa tarefa. Em contacto com as obras de arte, a humanidade de todos os tempos — também a de hoje — espera ser iluminada acerca do próprio caminho e destino.

Espírito Criador e inspiração artística

15. Na Igreja, ressoa muitas vezes esta invocação ao Espírito Santo: Veni, Creator Spiritus..., « Vinde, Espírito Criador, as nossas mentes visitai, enchei da vossa graça os corações que criastes ».[24]
Ao Espírito Santo, « o Sopro » (ruah), acena já o livro do Gênesis: « A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas » (1,2). Existe grande afinidade lexical entre « sopro — expiração » e « inspiração ». O Espírito é o misterioso artista do universo. Na perspectiva do terceiro milênio, faço votos de que todos os artistas possam receber em abundância o dom daquelas inspirações criativas donde tem início toda a autêntica obra de arte.
Queridos artistas, como bem sabeis, são muitos os estímulos, interiores e exteriores, que podem inspirar o vosso talento. Toda a autêntica inspiração, porém, encerra em si qualquer frêmito daquele « sopro » com que o Espírito Criador permeava, já desde o início, a obra da criação. Presidindo às misteriosas leis que governam o universo, o sopro divino do Espírito Criador vem ao encontro do génio do homem e estimula a sua capacidade criativa. Abençoa-o com uma espécie de iluminação interior, que junta a indicação do bem à do belo, e acorda nele as energias da mente e do coração, tornando-o apto para conceber a ideia e dar-lhe forma na obra de arte. Fala-se então justamente, embora de forma analógica, de « momentos de graça », porque o ser humano tem a possibilidade de fazer uma certa experiência do Absoluto que o transcende.

A « Beleza » que salva

16. Já no limiar do terceiro milênio, desejo a todos vós, artistas caríssimos, que sejais abençoados, com particular intensidade, por essas inspirações criativas. A beleza, que transmitireis às gerações futuras, seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única atitude condigna.
De tal assombro poderá brotar aquele entusiasmo de que fala Norwid na poesia, a que me referi ao início. Os homens de hoje e de amanhã têm necessidade deste entusiasmo, para enfrentar e vencer os desafios cruciais que se prefiguram no horizonte. Com tal entusiasmo, a humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que « a beleza salvará o mundo ».[25]
A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro. Por isso, a beleza das coisas criadas não pode saciar, e suscita aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como S. Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: « Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! ».[26]
Que as vossas múltiplas sendas, artistas do mundo, possam conduzir todas àquele Oceano infinito de beleza, onde o assombro se converte em admiração, inebriamento, alegria inexprimível.
Sirva-vos de guia e inspiração o mistério de Cristo ressuscitado, em cuja contemplação se alegra a Igreja nestes dias.
Acompanhe-vos a Virgem Santa, a « toda bela », cuja efígie inumeráveis artistas delinearam e o grande Dante contempla nos esplendores do Paraíso como « beleza, que alegria era dos olhos de todos os outros santos ».[27]
« Eleva-se do caos o mundo do espírito »! A partir destas palavras, que Adam Mickiewicz escrevera numa hora de grande aflição para a pátria polaca,[28] formulo um voto para vós: que a vossa arte contribua para a consolidação duma beleza autêntica que, como revérbero do Espírito de Deus, transfigure a matéria, abrindo os ânimos ao sentido do eterno!
Com os meus votos mais cordiais!

Vaticano, 4 de Abril de 1999, Solenidade da Páscoa da Ressurreição.

JOÃO PAULO PP. II

[1] Dialogus de ludo globi, liv. II: Philosophisch-Theologische Schriften, III (Viena 1967), p. 332.
[2] As virtudes morais, particularmente a prudência, dão ao sujeito a possibilidade de agir de harmonia com o critério do bem e do mal moral: segundo recta ratio agibilium (o justo critério dos comportamentos). A arte, diversamente, é definida pela filosofia comorecta ratio factibilium (o justo critério das realizações).
[3] Promethidion, Bogumil, vv. 185-186: Pisma wybrane, II (Varsóvia 1968), p. 216.
[4] A versão grega dos Setenta exprime claramente este aspecto, ao traduzir o termo hebraico t(o-)b (bom) por kalón (belo).
[5] Filebo, 65 A.
[6] João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 80: AAS 91 (1999), 67.
[7] Este princípio pedagógico foi enunciado pela pena autorizada de S. Gregório Magno, numa carta, do ano 599, escrita ao Bispo Sereno de Marselha: « A pintura é usada nas igrejas, para que as pessoas analfabetas possam ler, pelo menos nas paredes, aquilo que não são capazes de ler nos livros » (Epistulæ, IX, 209: CCL 140A, 1714).
[8] Lodi di Dio Altissimo, vv. 7 e 10: Fonti francescane, n. 261 (Pádua 1982), p. 177.
[9] Legenda maior, IX, 1: Fonti francescane, n. 1162 (Pádua 1982), p. 911.
[10] Enkomia na celebração do Orthrós do Grande Sábado Santo.
[11] Homilia I, 2: PG 34, 451.
[12] « At nobis ars una fides et musica Christus » (Carmen 20, 31: CCL 203, 144).
[13] Cf. João Paulo II, Carta ap. Duodecimum sæculum (4 de Dezembro de 1987), 8-9: AAS 80 (1988), 247-249.
[14] A perspectiva invertida e outros escritos (Roma 1984), p. 63.
[15] Paradiso XXV, 1-2.
[16] Cf. João Paulo II, Homilia da Missa celebrada na conclusão dos restauros dos frescos de Miguel Ângelo na Capela Sistina (8 de Abril de 1994): L'Osservatore Romano (ed. port. de 16 de Abril de 1994), p. 7.
[17] Cf. AAS 56 (1964), 438-444.
[18] N. 62.
[19] Mensagem do Concílio aos artistas (8 de Dezembro de 1965): AAS 58 (1966), 13.
[20] Cf. n. 122.
[21] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 62.
[22] A teologia no século XII (Milão 1992), p. 9.
[23] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22.
[24] Hino de Vésperas, na Solenidade de Pentecostes.
[25] F. Dostoevskij, O Idiota, parte III, cap. V (Milão 1998), p. 645.
[26] « Sero te amavi! Pulchritudo tam antiqua e tam nova, sero te amavi! » (Confessiones 10, 27: CCL 27, 251).
[27] Paradiso XXXI, 134-135.
[28] Ode à juventude, v. 69: Wybór poezji, I (Wroclaw 1986), p. 63.

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